quinta-feira, 21 de junho de 2007

Corvos pretos e a forma dominante do caos



O eterno conflito entre racionalismo e empirismo levou, dentre outras coisas muito mais importantes, à criação da máxima "o que chamamos de ordem é apenas a forma dominante do caos", que foi posteriormente dobrada e torcida para "o que chamamos de lógica é a forma dominante do caos".

Ocorre que há salvação para essa segunda frase. Apresento uma pequena anedota lógica: O paradoxo dos corvos de Hempel.

Estamos partindo do seguinte pressuposto: "Todos os corvos são pretos". Ora, não se pode provar que todos os corvos do mundo são pretos, pois isso requereria que uma pessoa sozinha tivesse visto a todos, ou que todos fossem devidamente fichados e catalogados. Crazy, much? Obviamente, a conclusão de que todos os corvos são pretos é feita por amostragem; é um raciocínio indutivo. "Desde tempos imemoriais as pessoas convivem com corvos e nunca, em lugar algum, alguém viu um corvo que não fosse preto". Cada corvo preto que se vê corrobora a veracidade de "todos os corvos são pretos". Pois bem, entremos um pouco nas regras da lógica: a proposição "se p, então q" é equivalente à outra proposição "se não-q, então não-p". Afinal, se a consequência necessária de p não ocorreu, p também não pode ter ocorrido. "todos os corvos são pretos" pode ser escrito como "se X é um corvo, então X é preto" e é, portanto, equivalente a "se X não é preto, X não é um corvo" ou "todas as coisas não-pretas não são corvos". Faz sentido e é até bastante obvio, certo?

É aqui que entra o problema. Qualquer prova que corrobora uma proposição também corrobora todas as suas equivalentes, afinal, são todas a mesma coisa. Logo, todas as coisas não-pretas que não são corvos (um chinelo branco, uma colher prateada) são provas de que todos os corvos são pretos.

Uma das concepções da epistemologia da ciência, no caso, da teoria verificacionista de fundamentação de uma teoria científica, é de que casos particulares corroboram com asserções universais. Assim, "Este corvo é preto" corrobora com "Todos corvos são pretos". Hempel criou esse paradoxo para desmentir tal concepção.

Isto quer dizer que, se "Este corvo é preto" corrobora com "Todos corvos são pretos", então "Este não-corvo não é preto" corrobora com "Tudo que não é preto não é corvo" que, sendo aquivalente a "Todos corvos são pretos", faria com que esta fosse corroborada também. Ou seja, se aceitarmos que casos particulares corroboram com asserções universais, deveríamos aceitar que a verdade de "esta maçã é vermelha" ou "aquela folha é verde" concorda com "todos corvos são pretos".

Não se trata aqui de um paradoxo no sentido estrito da palavra. Afinal não há uma contradição. Isso consiste mais em uma demonstração de que se a teoria verificacionista procedesse, ter-se-ia de aceitar que banalidades quaisquer corroboram com uma teoria científica. Não que isso precise ser dito depois do exemplo acima, mas Hempel era um filósofo da ciência e amiguinho de Karl Popper, criador do método da falseabilidade do conhecimento científico.

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